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martes, 7 de septiembre de 2010

LOURDES ESPÍNOLA - AS NÚPCIAS SILENCIOSAS, Selecção e Tradução de ALBANO MARTINS / BIBLIOTECA “BARCO ÉBRIO”, 2006.


AS NÚPCIAS SILENCIOSAS
Poesías de
LOURDES ESPÍNOLA
(Enlace a datos biográficos y obras
En la GALERÍA DE LETRAS del
www.portalguarani.com )
Selecção e Tradução de
ALBANO MARTINS
BIBLIOTECA “BARCO ÉBRIO”
© QUASI EDIÇÕES
,
[K] fábrica mutante / sobre fotografía de pygment
2006 (65 páginas)

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BREVE NOTA DE APRESENTAÇÃO
por ALBANO MARTINS
Lourdes Espínola nasceu cm Assunção, Paraguai, cm 9 de Fevereiro de 1954. Formada nas áreas de Ciências, Relações Internacionais, Humanidades e Literatura, é detentora de títulos adquiridos nas seguintes universidades: North Texas State University (EUA), Southwest Texas State University (EUA), Universidad Nacional de Asunción (Paraguai) e Universidad Complutense de Madrid.
É poeta, crítica literária e jornalista. Como escritora convidada, fez leituras e proferiu conferências nas universidades de Caen, Toulouse le Mirail, Avignon, Montpellier e Sorbonne.
É autora de nove livros de poemas, dos quais se salientam: SER MUJER E OTRAS DESVENTURAS / WOMANHOOD AND OTHER MISFORTUNES (Latitudes Press, EUA), TINTA DE MUJER / ENCRE DE FEMME (Indigo Éditions, Paris, 1997), LAS PALABRAS DEL CUERPO / LES MOTS DU CORP (Indigo Éditios, Paris, 2001).
Foi conselheira cultural da Embaixada do Paraguai em Madrid e desempenhou funções de adida cultural na Embaixada do seu país em Lisboa.
A sua obra está traduzida em francês, italiano, alemão, inglês e, agora, em português.
De si e da sua poesia diz Lourdes Espínola: "Vivi cm territórios diferentes, diferentes línguas, geografias diferentes. Nestas viagens, fui aligeirando a bagagem e aprendi, ao mesmo tempo, que o corpo é a única casa. A casa a que sempre regressamos, o mapa pessoal que transporta e retém a memória da nossa história. O corpo, na minha poesia, é agora o território da escrita..." Como escreve o seu tradutor francês, Claude Couffon, na obra de Lourdes Espínola "cada poema, duma grande força sugestiva, é como um segredo sussurrado ao ouvido do leitor".
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A Vincent, mágico e generoso como o mar de Portugal.
A minha amada familia.
A Albano, poeta, amigo.

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SER MULHER E OUTRAS DESVENTURAS

NASCER MULHER-POETA
A alternativa:
saltar da varanda; estilhaçá-la.
Saias, leque, fio, agulha:
dispo-me e insurjo-me.
Estou farta de olhar a vida
desta varanda!
Cárcere semicircular
orelha surda, surda boca
grito e falo
do solitário oficio de escrever.
Manuscrito de visões interiores,
espelhos de mulher abrindo-se.
Nasço
rasgando fontes de veneno.

DELMIRA
Ser contradição ou mulher
é a mesma coisa, afinal,
arder
fingir pudor
calar, cantar
adorar o próprio corpo
engalaná-lo com vestidos
cremes, perfumes e artifícios
tudo envolto cm falsa modéstia.

E ter
a medida exacta,
o olhar virginal
os olhos sorridentes
mas desejando
a longa carícia
que solte os cavalos
do desejo sabiamente reprimido.

SOLIDÃO
Com o cheiro dos meus poros,
inclinas-te comodamente
sobre o longo corredor do meu peito.
Órfã de mim mesma,
percorres as minhas entranhas,
reconheces o ten velho território.
Escorpião mordido
pelo seu próprio veneno
vejo-me retorcida
no teu sorriso final.

TÍMPANO E SILÊNCIO

VAMOS CONSIDERAR TUDO
Vamos considerar tudo:
o ten olhar empapado de outras noites,
as tuas mãos de semente
prestes a cravar-se nas minhas costas,
e sobretudo o ten fogo, tão criador
e que receio me destrua;
e também
a morte pontual do amor,
como tu disseste.
É melhor, porém, assim: não consideremos nada
e
estende
o ramalhete de nervos dos meus dedos
apenas para que Deus
não me encontre adormecida.

COMO TERRA MALDITA
Como terra maldita,
o centro do ten útero.
Como intermináveis escravos
sem valor de mercado:
as mulheres
passam de mão em mão,
mas as suas nunca
aprisionarão o próprio destino.

PROCURAR A TUA BÚSSOLA...
Procurar a tua bússola,
ser taça, fruto, receptáculo,
som do amor
que se junta na água e na terra.
Madrugadas tardias
a tecer a tua boca na minha almofada
(entre a meada da lembrança
e a do esquecimento).
Acordo tersa,
fecunda hélice perene;
esta espiral aquática
que ignora sempre o teu apelo.
Jogo do tímpano e do som
carregado de humidade e de colinas,
de língua de desejo
ou tensa funda.
Eu sou a tépida humidade
que não volta,
sou o desejo que espera em silêncio,
sou a outra que acorda de madrugada.

PARTIDAS E REGRESSOS

VAMOS TENTAR
Vamos tentar
enganar a vida;
talvez ela nêo se aperceba
porque é de norte e está frio
e a morte também está ocupada noutro sítio.
Talvez consigamos esconder-nos,
a lua tem nuvens e há silêncios a encobri-la...
Fingiremos que isso realmente não importa;
que estamos sós pela primeira vez,
com o corpo estendido
neste enxame perfeito,
como uma cilada única
que espera há séculos.

UMA MULHER É APENAS...
Uma mulher é apenas
essa que às vezes
faz crescer (no lugar errado)
a dúvida
numa ênfase sem lógica,
o arrepio que devagar...
Uma mulher impõe-se suavemente
com movimentos de peixe;
ela insinua-se nos teus sentidos e nas tuas palavras;
deixa um livro aberto entre os lençóis
e uma camélia
de fogo nas tuas pernas.

EXPLICAÇÃO
E li tantas histórias com final feliz
de fadas e princesas,
de duendes e país de maravilhas,
que comecei a acreditar
que talvez eu também pudesse entrar no espelho do conto,
que por qualquer razão
também eu escapasse às ciladas do esquecimento
e do adeus aos afectos no pretérito perfeito.

A ESTRATÉGIA DO CARACOL

A VIDA É UMA METÁFORA
Companheira com o cheiro dos meus anos
e o corpo das minhas horas.
Vida,
deixa-me enroscar, menina,
no colo do meu pai.
Apenas uma vez
em nome dos anos,
deixa-me dizer-te
que às vozes não gosto de ti,
porque sinto...
que nesta jogada, ó companheira,
tiraste mais do que deste.
Que ficaste, ó vida,
com o melhor de mim mesma.
Hoje não me custa carregar com a máscara:
cabelos brancos, rugas, semblante envelhecido,
mas custa-me não ter:
o meu filho pequeno,
uma mãe que ria
e um irmão que brinque com aviões;
um pai quase omnipotente
e uma irmã que venda, descalça,
jasmins ao domingo...
Quero desenredar o fio,
voltar "era uma vez"
para a minha história
roubar-te uma esperança distraída.

E ELES TAMBÉM ESTAVAM ALI
O sangue dos construtores de pirâmides
misturado com o fumo dos fornos de Auschwitz
(comida de leões nos primitivos tempos).
O cogumelo de Hiroshima e
a laranja vietnamita
com vozes de remadores fenícios.
Um pirata e um índio atados
ao mastro e açoitados...
são sombras que de noite
clamam e reclamam.
Eles estão também
agora aqui.

AS PALAVRAS DO CORPO

(DE COMO AS MULHERES ESCREVEM POEMAS ERÓTICOS)
Se escrevesse um poema sobre nós,
seria censurada.
Deixa-me então contar-te
como o junco se faz cana
e espalha lá dentro o seu mel oculto.
Ou falar-te daquela orquídea violeta
de pétalas e pétalas que navegam em seria,
ou de como ela se abre
e entram estrelas
que iluminam o sangue, esse que estava adormecido.
E de como os olhos bebem
o dicionário todo.
Mas façamos um contrato:
a ninguém o contemos
para que este poema não morra censurado.

I
A viagem da minha vida:
suficientemente fechada
para me proteger,
suficientemente porosa
para que tu penetres...

II
A minha roupa virada do avesso,
com as costuras à mostra:
pequenas cicatrizes do meu corpo.
Procurar equilibrar um anjo
nas tuas longas pernas,
é assim que me tens...
e manténs.

III
A lua foi um presente poeirento
- perfeito e único -
que tinha que devolver no dia seguinte:
dependurei-a, pontual,
polida, clara,
dançando na ponta dum fio transparente.

Restaurar o meu corpo,
dar-lhe
luz, cor, movimento
ou talvez um coração espremido
em frases de poemas como fugas.
Um gesto, uma sombra, uma silhueta,
construir com círculos de ritmo
um rosto, uma luz, um carrocel,
ou melhor, uma perfeita analogia.
Restaurar o meu corpo:
Uma abstracção tão luminosa cm seu desejo.

Despi-me toda:
dos dedos ao ventre,
da minha pele à tua,
do meu pulsar à tua mão.
Estendi-me,
a oferenda dos deuses:
palpitante, morna,
balbuciando segredos.
E puseste as mãos
em concha, como ninhos,
e sentiste o fogo
e fechaste os olhos.
A luz brilhante cega
quando não a esperamos.

MITO DA CRIAÇÃO
Abri as pernas
para dar luz ao sol.
O calor derretia-se nas minhas costas
e a sua luz
iluminava os meus joelhos.
As articulações, ao rodar,
transformaram-se em música
que se apaziguava com o passar do tempo.
Abri os braços
e dos seios nasceu a lua.
Então a tua língua
ergueu-me para a humanidade inteira.


***.
*. Breve Nota de Apresentação
*. SER MULHER E OUTRAS DESVENTURAS : Nascer Mulher-poeta / Delmira / Solidão
*. TÍMPANO E SILÊNCIO : Vamos Considerar Tudo / Como Terra Maldita / Procurar A Tua Bússola... / Umas Mãos Experientes / Cada Árvore, Uma Flauta
*. PARTIDAS E REGRESSOS : Vamos Tentar / Uma Mulher É Apenas... / Explicação
*. A ESTRATÉGIA DO CARACOL : A Vida É Um Mal Passageiro / A Vida É Uma Metáfora / E Eles Também Estavam Ali / (Mesmo Que As Tuas Veias Gelem) / Como A Dança Do Golfinho No Oceano / Bússola / Tiraram-me a palavra / Eu era um cego / E foram noites e foram dias
*. AS PALAVRAS DO CORPO : Os nossos corpos molhados pela água, / A lua impiedosa / Eu serei Margarida e tu o mestre, / Corpo / Onde reconheci o ten sinal, / Podem acontecer duas coisas: / De noite, quando as tuas pálpebras te cobrem, / Espero-te, embora estejas a meu lado, / A tua caricia é um laço, / Se pudesses ver que sou uma espécie em extinção: / Um dia os ponteiros dos relógios girarão ao contrario / (De Como As Mulheres Escrevem Poemas Eróticos) / A viagem da minha vida / Restaurar o meu corpo, / Despi-me toda: / No Terreno Do Sagrado / Despi-me / My Sole Desire / Um anjo ou Chagall à beira da tua cama, / Telefone Mito Da Criação / Corpo.
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